Cega que não quer ver; a sociedade
“A única deficiência verdadeiramente incapacitante é a deficiência moral.” (Louis Braille)
Caroline Cezar*
Depois de um ano de dedicação e disciplina, morando na mesma casa, se vendo todos os dias, indo juntos a todos os lugares, João Paulo se separou de Blanche, por um bem maior. Não é mais um casamento fracassado, trata-se do trabalho de socialização, voluntário, a que ele e a esposa se submeteram a fim de educar Blanche, uma cadela golden retriever, nos primeiros meses de vida, para que depois ela seja preparada para o mercado de trabalho. Assim acontece com os cães-guias, uma família os “adota” por 13 meses, e frequenta o máximo de locais possíveis para que o cachorro se acostume a “viver em sociedade”. Depois disso, ele passa por um treinamento específico (de arreio) com o instrutor, em torno de 4 meses, depois mais um mês treinando com o instrutor e o possível cliente (cego), que vai recebê-lo, para só então estar pronto para ser um guia, e ir para as ruas a trabalho.
A fase de socialização, feita por famílias voluntárias, é essencial para que o cão se sinta ‘confortável’ em qualquer ambiente. Barulhento ou não, fechado ou aberto, com movimento ou sem, com cheiro de comida, com diferentes sons e imagens. Ele tem que achar ‘normal’, antes de ser guia, subir e descer de um ônibus, por exemplo. Entrar e sair de um shopping.
A separação não é tão fácil, diz João, mas como é por uma causa nobre, o casal deixa o egoísmo de lado e aposta no amor incondicional e sem apego, esse tão incomum nos dias de hoje. “Dá uma saudade, porque era sempre junto, mas sei que ela vai estar servindo muito bem a alguém”, conta João.
Blanche está quase pronta para o trabalho, quem ainda precisa de muita educação é a sociedade em que ela vive. Nessa experiência de 13 meses foram inúmeros casos de destrato, deselegância e falta de respeito com os condutores, que encontraram barreiras até mesmo na igreja, onde o segurança impediu que eles entrassem.
A desinformação e falta de cultura do povo dificulta um trabalho de alta relevância para toda comunidade, já que os cegos fazem parte do todo. Pessoas felizes somam, enquanto que pessoas isoladas e impossibilitadas são uma carga negativa. Fornecer condições para que os deficientes -qualquer um- participem e estejam integrados não é importante só para eles, mas para a saúde de uma população de forma geral. Qualidade de vida não é ter dois carros na garagem, nem ter duas geladeiras, nem duas cafeteiras, nem tantos x de bens materiais. Qualidade de vida é ter um povo feliz. Isso não é individual. Isso é coletivo.
Não deixaram entrar na igreja. No supermercado duas senhoras proferiram desaforos em alto e bom som. No mercado público de Itajaí o cão guia e seus condutores saíram escoltados pela polícia. Na calçada da Quarta Avenida, uma senhora gritando não conseguia ouvir o que o condutor explicava.
Esse foi o principal problema. A ignorância faz parte, ninguém tem culpa de não nascer sabendo. Por isso os condutores andam com um documento comprovando que o cão está em treinamento, e a lei, que permite a entrada desse cão em todos os lugares, exceto em
Quando acontece alguma reclamação, eles explicam o que estão fazendo. Que o cão guia não nasce pronto. Que precisa de educação. Treinamento para servir. Treinamento esse que pode ser desenvolvido, com disciplina. Poucas vezes João e a esposa conseguiram mostrar tal documento. Poucas vezes conseguiram dizer o porquê daquele cão estar dentro da padaria. Ali, perto da Rua 3000, o proprietário os expulsou. Alguns clientes assistiram e disseram que não poriam mais os pés lá. É assim que os cidadãos deviam se comportar. Isso não é problema do cego. Não é problema do João, que assumiu o papel de socializador, e se incomodou bastante com essas situações. É geral. Uma sociedade que não consegue entender e aceitar um trabalho humanitário como esses é uma sociedade atrasada, uma sociedade subdesenvolvida, uma sociedade que está doente. É uma sociedade cega, por opção. Cega que não quer ver.
* Caroline Cezar é jornalista e se esforça para manter os olhos funcionando em meio às distrações do caminho.
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